A chegada de Clément Lenglet ao Sport Lisboa e Benfica não é apenas uma contratação; é uma mudança de paradigma tático na Luz. Quem o conhece desde os tempos em que ainda era apenas uma promessa no Nancy, em França, não tem dúvidas: o central francês traz consigo um perfil que a defesa encarnada precisava desesperadamente. Pablo Correa, o treinador que lançou Lenglet no futebol sénior, abriu o livro sobre o novo reforço benfiquista numa entrevista reveladora.
O diagnóstico: A agressividade vs. A qualidade com bola
A comparação com Nicolás Otamendi — o "patrão" que saiu da Luz — é imediata e inevitável. No entanto, para Correa, os estilos são tão distintos que o Benfica parece ter trocado a força bruta pela inteligência técnica.
O perfil de Otamendi: Agressivo, combativo, um líder de garra que impõe respeito pelo embate físico.
O perfil de Lenglet: Mais cerebral, tecnicamente superior e, nas palavras do técnico, "mais jogador com a bola nos pés".
Para o treinador uruguaio, a vantagem do novo reforço encarnado está clara: "O Otamendi é mais agressivo, mas o Clément tem melhor jogo curto e longo". Esta é a peça que faltava para um Benfica que, sob o comando de Marco Silva, quer dominar através da construção desde trás. Lenglet não impressiona pela força física bruta, mas sim pela antecipação e inteligência no posicionamento, "escondendo" qualquer fragilidade física através da leitura de jogo.
A "fragilidade" em Madrid? Apenas falta de ritmo
A última época de Lenglet em Madrid, marcada por lesões e pouco tempo de utilização no Atlético de Simeone, gerou dúvidas entre os adeptos. Pablo Correa, contudo, desvaloriza o histórico recente. O técnico defende que a falta de continuidade foi o maior inimigo do francês.
"O Atlético tinha praticamente uma seleção de futebolistas de topo. É muito difícil cometer erros quando não se tem continuidade. Não acho que seja crónico. Quando alguém joga sempre, temos tendência a esquecer os erros", garante Correa.
Para o antigo treinador, o central de 31 anos não está "desgastado". Com a confiança do balneário e, acima de tudo, regularidade competitiva, veremos a melhor versão de Clément Lenglet — um central que se formou nos palcos exigentes do Barcelona e que aprendeu a conviver com a pressão extrema.
O conselho de mestre: Esqueçam Otamendi
Mais do que substituir um nome, o Benfica procura uma nova identidade. Pablo Correa deixa um aviso importante aos adeptos e ao próprio jogador: Lenglet não deve ser visto como o sucessor de Otamendi, mas como uma alternativa de qualidade superior no que toca à circulação de bola.
"O Clément tem de pensar em deixar a sua marca na história do Benfica através das suas exibições, e não em ocupar o lugar de outro jogador. Se o Benfica olhou para ele, é porque procura outras coisas", sublinha.
O que ganha o Benfica?
A análise de Correa destaca três trunfos fundamentais que Lenglet traz para a equipa:
Construção: O "excelente pé esquerdo" permite variar o corredor e ligar o jogo com precisão.
Jogo Aéreo: Tanto na defesa como no ataque, o francês mantém a solvência nas alturas.
Tranquilidade: A calma com que circula a bola é o antídoto perfeito para jogos em que a equipa adversária fecha o bloco e exige critério na posse.
A mensagem está dada: se o Benfica lhe der a regularidade que faltou em Espanha, Lenglet promete ser a "voz" da tranquilidade na defesa encarnada. O estilo de jogo português parece, na visão de quem melhor o conhece, ser a luva perfeita para o talento francês.
Acredita que a qualidade de passe e a leitura de jogo de Clément Lenglet compensam a eventual perda de "agressividade" que Otamendi trazia, ou o futebol português, por vezes muito físico, acabará por expor a menor robustez do francês?

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