O esporte favorito da Luz: Bater em Rui Costa
No universo do Sport Lisboa e Benfica, existe uma máxima não escrita que parece reger a rotina da massa adepta: se algo corre mal, a culpa tem de ser de Rui Costa. O presidente encarnado tornou-se, na prática, o "saco de pancada" oficial da nação benfiquista. É uma figura condenada pela opinião pública a ser sempre a peça que não encaixa, independentemente da decisão tomada.
Se renova com um treinador, é criticado; se tenta contratar outro, a pressão aumenta. Se busca o lucro máximo em negociações, é mesquinho; se resolve rápido e perde dinheiro, é incompetente. O fenômeno é curioso: Rui Costa é "preso" por respirar e "preso" por não saber fazer apneia. Mas será que essa demonização constante é um exercício de crítica construtiva ou apenas um escape emocional para uma torcida que não aceita nada menos que a perfeição?
Arbitragem vs. Gestão: Onde termina a desculpa e começa a realidade?
O cenário é clássico e recorrente. O Benfica perde um título, como a Taça de Portugal de 2025, ou sofre com decisões de arbitragem — como o polêmico penálti de Otamendi na época 2024/2025 ou o toque de mão de António Silva — e a indignação dos "seis milhões" explode. As queixas sobre o suposto prejuízo sistêmico contra o clube são legítimas no discurso do adepto, mas há uma contradição flagrante no comportamento dessa mesma massa.
O paradoxo do adepto
Se o Benfica é, de fato, o clube mais prejudicado pelo sistema de arbitragem, por que é que o dedo apontado termina sempre na mesma direção: o gabinete da presidência?
O culpado externo: Árbitros, rivais, o "sistema".
O culpado interno: Rui Costa.
Há uma dissonância cognitiva evidente. Se o problema é estrutural e exterior, por que transformar o presidente — que, tecnicamente, está do mesmo lado da barricada — no alvo principal de todas as críticas? O "saco de pancada" humano serve para absorver todas as frustrações, desde falhas individuais de jogadores em campo até erros de estratégia na diretoria.
O balanço de cinco anos: Entre a glória passada e a mediocridade presente
Rui Costa, o ídolo que encantou gerações com a camisola 10, vive a dura transição para o traje presidencial. Como jogador, a nota era máxima; como dirigente, a avaliação tem sido, sendo generoso, mediana.
Os números não mentem e servem como combustível para os críticos: quatro troféus em 20 possíveis (um Campeonato Nacional, uma Taça da Liga e duas Supertaças) é um pecúlio magro para a dimensão do Sport Lisboa e Benfica. É um palmarés que deixa margem para a insatisfação, mas que, ao mesmo tempo, não justifica a perseguição desenfreada que ignora qualquer nuance.
Onde Rui Costa realmente tropeçou
É inegável que a gestão de Rui Costa cometeu erros estratégicos graves que custaram caro:
A demissão tardia de Roger Schmidt: O custo de oportunidade de manter um ciclo esgotado custou ao clube competitividade e tempo de reação.
A instabilidade técnica: A incapacidade de segurar Bruno Lage e os constantes ziguezagues no comando técnico geraram um clima de incerteza crônica.
Por outro lado, decisões como a estratégia de mercado para a contratação de Marco Silva — priorizando o encaixe financeiro de 15 milhões de euros — demonstram uma gestão que busca sustentabilidade, ainda que o adepto, movido pela paixão imediata, exija que o dinheiro seja ignorado em prol de resultados instantâneos.
O silêncio estratégico como resposta
Uma das críticas mais ácidas a Rui Costa é a sua postura perante os rivais. Enquanto a bancada exige um presidente de "combate", que faça frente aos líderes de FC Porto e Sporting, Rui Costa opta por uma via mais institucional.
Para muitos, isso é fraqueza. Para outros, é a manutenção da dignidade do cargo. O fato de não ter transformado a apresentação de Marco Silva em um circo midiático — ou em um acerto de contas com figuras como José Mourinho — demonstra uma parcimônia que contrasta com o ruído ensurdecedor das redes sociais.
Conclusão: É hora de parar o "esporte" do saco de pancada?
A cultura de bater em Rui Costa tornou-se um "esporte" mais praticado em Portugal do que o próprio futebol. No entanto, essa polarização extrema prejudica o clube. Ao transformar o presidente no único culpado de todos os males — do erro de arbitragem ao golo falhado — a massa adepta perde a oportunidade de realizar uma autocrítica necessária sobre a estrutura, a política de contratações e as exigências irrealistas impostas a quem ocupa o cargo.
Rui Costa falhou? Sim. Errou nos timings e na estratégia esportiva em diversos momentos. Mas tratá-lo como o único vilão é ignorar a complexidade de gerir um gigante como o Benfica. Talvez o maior desafio de Rui Costa não seja vencer os rivais em campo, mas sobreviver ao tribunal de opiniões de uma claque que, no fundo, só quer ter alguém para culpar, independentemente de quem estiver no trono.
Considerando a trajetória atual, o problema do Benfica é a gestão de Rui Costa ou a pressão desmedida de uma massa adepta que não permite ciclos de reconstrução?

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